Quando a vida pede pausa

Por Filipe Mescolotto

Hoje, tive que fazer algo muito difícil, pausar um sonho!

Há quatro meses corri a maratona internacional de Florianópolis, cidade onde vivo, foram 42 quilômetros em 3 horas e 02 minutos. Esta foi minha primeira maratona. Já fiz triatlhon, já joguei vôlei, nadei muito, jogava futebol, enfim, o esporte sempre esteve presente na minha vida. Pratico, assisto e amo conversar sobre o assunto.

Mas foi na corrida que me encontrei de verdade. A corrida me inspira, me faz refletir sobre meu caminho nesta vida, coloca meus pensamentos em ordem, me motiva em vários sentidos. Na corrida me desprendo de pensamentos negativos, me desprendo de juízos que não me servem mais, me sinto forte, vivo e feliz.

Já corri em lugares fantásticos, como por exemplo, num parque em Berlin na Alemanha, com uma temperatura de 12 graus negativos, num corredor aberto no meio da neve. Já corri em lugares sul-reais com um calor de 40 graus em estrada de chão batido. Correr me mostra o mundo, me possibilita ver coisas que jamais poderia ver de dentro de um carro. Possibilita que eu olhe mais para mim mesmo e para as pessoas que vou cruzando no meu caminho.

Na maratona internacional de Florianópolis eu tinha um sonho, me classificar para fazer a maratona de Boston nos Estados Unidos, em 16 de abril de 2018. A maratona mais antiga do mundo, uma das 6 grandes e a unica que exige um índice de desempenho dos atletas (profissionais e amadores) que irão participar.

Alcancei o meu propósito e fui muito bem na minha classificação. Estava no meu melhor momento e completando 40 anos.

Então, começaram os treinos para Boston. Sempre treino com orientação profissional. Após um mês treinando, comecei a ter fortes dores na sola do meu pé esquerdo. Massagem, fisioterapia, osteopatia, busquei todos os profissionais com os quais já estou acostumado a tratar dores e lesões. A cada tentativa um pouco de melhora, mas rapidamente o quadro se repetia.

Continuei insistindo, conversando sempre com meu treinador, fazendo exercícios para soltar a musculatura, mergulhando o pé em bacias de gelo para aliviar as dores após cada treino.

Após mais de 3 meses tentando tudo que podia, comecei a perceber que as dores só pioravam, passei a sentir dor no pé 24 horas por dia, independente dos treinos ou das horas de descanso, a dor passou a me acompanhar o tempo todo.

Comecei a me dar conta do quanto eu estava ficando emocionalmente mal com isto. Não conseguia me desprender, relaxar, buscando o tempo todo compreender a dor, me cobrando sobre os treinos que começavam a ficar atrasados, me culpando por não estar cumprindo com algo que eu havia planejado.

Neste momento, percebi o quanto eu estava estressado com tudo isto, o quanto eu estava sofrendo. Correr é uma paixão, algo que me dá muito prazer e este prazer havia se tornado uma tortura, pensava nos treinos e pensava na dor, no sofrimento que aquilo havia se transformado.

Foi então, que um dia saí pra fazer o meu treino e muito antes do final eu parei. Simplesmente parei. Pensei e me dei conta de que de alguma maneira a vida estava me pedindo uma pausa. Respirei fundo, caminhei um pouco e voltei pra casa.

No caminho para casa, tomei a decisão de desistir da maratona de Boston.

Percebi que o melhor que eu poderia fazer por mim mesmo era dar a pausa, o tempo que a vida estava me pedindo, para cuidar acima de tudo de mim mesmo.

Percebi que mais do que correr a maratona de Boston, eu precisava cuidar do meu amor pela corrida e não perder isto em minha vida.

Percebi que eu não queria mais aquela dor e que sem pausa, sem dar o tempo devido para cuidar do meu problema, a dor não iria desaparecer.

Percebi todas as emoções que estavam associadas a tudo que vinha acontecendo, meus medos, minhas inseguranças, minha dificuldade em assumir que não daria pra continuar.

A vida me pedia esta pausa e eu lutava para não dar.

Minha decisão naquele momento não foi desistir de Boston, mas abraçar a pausa que a vida me pedia e olhar com mais carinho e cuidado para o que eu estava precisando naquele momento.

Não é fácil compreender os sinais que a vida nos dá, ainda estou processando tudo, mas muito consciente de que fiz o melhor.

Boston vai continuará sempre lá, quem sabe 2019 ou 2020, e eu continuarei amando correr, com meu pé esquerdo 100% curado, deixando a vida fluir sem dor e com muito amor.